Free Fire mostra que periferia joga, mas precisa de mais acesso a games


“O Free Fire é um fenômeno nas periferias. Modificou a maneira como a periferia acessa games”. Essa é uma das primeiras falas de Tainá Félix, produtora cultural e desenvolvedora de jogos na Game Art em entrevista ao Canaltech. A empresa é encabeçada por ela e Jaderson Souza, que desenvolvem projetos e ações em regiões periféricas da cidade de São Paulo.

Em 2020, a dupla montou o projeto Videogames na Quebrada, em que vendeu pacotes com títulos da empresa e de outros desenvolvedores por até R$ 30. O valor foi convertido para Projeto Amigos das Crianças, voltado a dar auxílio a famílias desamparadas por conta da pandemia da COVID-19.

Tainá acompanha de perto como os jogos digitais chegam na periferia; por isso, acredita que Free Fire é um divisor de águas. O título gratuito para smartphones é, sozinho, um sucesso gigantesco no país. Segundo levantamento State of Mobile 2020, do App Annie, o jogo da Garena foi o mais baixado e com mais jogadores ativos por mês no Brasil.

Ele chegou não só à mão de fãs amadores dos games nas periferias, mas também ganhou o esporte eletrônico nessas regiões, o que culminou na Taça das Favelas. Esse é o nome do maior torneio de futebol de campo entre favelas do mundo, organizado pela Central Única das Favelas (CUFA). Contudo, em 2020, ganhou contornos digitais.

A Taça das Favelas virou uma competição oficial de Free Fire, com apoio da CUFA e da Garena. No total, participaram mais de mil times de diferentes favelas de todos os cantos do Brasil, com premiação de R$ 30 mil. E embora não haja dados específicos de acesso a games na periferia, é notório que o título ganhou esse espaço.

Entretanto, qual é o segredo de Free Fire?

Porta de entrada

Felipe Noronha é conhecido mundialmente no cenário de eSports pelo apelido de YoDa. Ganhou projeção como pro player, principalmente em League of Legends (LoL).

Profissionais como YoDa precisam de equipamentos para chegar lá. No caso do LoL, mouse e teclados responsivos são altamente bem-vindos. Já para os games de tiro em primeira pessoa, como CS:GO e Overwatch, um bom computador, com placa de vídeo de ponta e tela de alta responsividade fazem muita, mas muita diferença.

A questão é que um PC assim, com esses componentes e acessórios, não sai nada barato. Chutando por baixo, seriam cerca de R$ 15 mil contando com teclado, mouse, fones, tela, além do computador propriamente dito.

Por outro lado, Free Fire, que é gratuito, pede do jogador apenas um smartphone — qualquer um serve, de verdade. “É fato como o mobile é infinitamente mais acessível que um PC gamer. Ter um desses [PC] na periferia é um negócio surreal. Free fire é um fenômeno social, de acesso a jogo, em que você alça a galera a campeonatos”, acredita Tainá.

Um levantamento da Pesquisa Games Brasil de 2020 mostra que, entre os jogadores casuais, “60,8% preferem jogar em um aparelho mobile”. O que é questionável aqui é se a palavra “preferem” pode ser usada neste contexto, já que não existe a opção de acesso a um console de última geração ou um PC que rode jogos.

Pesquisa Games Brasil de 2020 (Arte e dados: PGB20)

O mesmo estudo, mas de 2019, também revela que 56,1% dos entrevistados ainda jogam no PlayStation 3 ou Xbox 360. Do total, 23,7% ainda jogam no PlayStation 2.

“Você tem o fenômeno do retrô para gente. Dos Play 1 e Play 2 aqui. Ou até o Xbox 360”, pontua Tainá. “Console também não é para todo mundo. É aquela percepção de uma pessoa da rua que tinha e todo mundo iria lá para casa dela jogar. A galera conhece muito os jogos, a galera consome os CDs queimados ainda, o 3 por R$ 10, que ainda tem na periferia, com consoles desbloqueados”.

Os consoles da nova geração lançados no final de 2020, PlayStation 5 e Xbox Series X e S, custam mais de R$ 4 mil. O alto preço justifica a dificuldade de acesso ao que há de mais recente nos games.

“Eu vi jogos como Free Fire bombando. Mas tenho alunos que gostam de jogos clássicos, tipo Sonic, Mario. Na periferia tem muita lan house ainda e playtime [ou fliperamas]. O contato com jogos tem bastante, sim”, conta Tatyane Calixto, professora, desenvolvedora de jogos e organizadora da Game Jam das Minas.

Como quebrar essa barreira? 

YoDa não é citado à-toa neste texto. O ex-atleta sabe o alto custo de equipamentos para se tornar um profissional dos games. Por isso, ele montou o Instituto YoGamers do Bem em parceria com a HyperX.

O projeto sem fins lucrativos oferece aulas a 80 crianças e adolescentes de até 16 anos em oficinas de design, jogos e inglês no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte. “O game mudou a minha vida e pode transformar a vida de outras pessoas também. O jogo ajuda no desenvolvimento de habilidades, como estratégia, concentração e resiliência, favorece a socialização e a integração entre as pessoas, e já é realidade como profissão, carreira e fonte de renda”, comenta.

Todos os equipamentos são oferecidos pela HyperX, que também apoia outro projeto, o AfroGames, na periferia do Rio de Janeiro. O espaço foi desenvolvido em parceria com a AfroReggae e fica na favela Vigário Geral na capital fluminense.

Espaço das dalas de League of Legends e Fortnite na AfroGames (Foto: Divulgação/HyperX)

O grupo oferece aulas para quem quer ficar fera em League of Legends e Fornite, além de também ensinar programação e inglês para mais de 100 jovens em período extracurricular. “O que queremos passar aqui também é a ideia de direito ao acesso. As pessoas precisam sentir que podem ter acesso à tecnologia. Talvez agora, eu não possa comprar? Tudo bem, mas eu posso ter acesso”, acredita Fábio Bottallo, gerente sênior de marketing da HyperX na América Latina.

Um dos impactados no projeto foi Luiz Augusto Júnior, que atualmente se apresenta como streamer de games. No ano passado, ele participou de campeonatos representando o AfroGames e sua vida mudou.

“Eu nunca tinha pensado em ser streamer, mas o projeto me apresentou muitas coisas que eu nunca tinha imaginado que poderia conhecer na minha vida. […] Fui visitar uma mansão de gamers e um dos envolvidos doou seu próprio notebook para que eu começasse a fazer minhas lives. Hoje, faço streams no Facebook Gaming e vídeos para o YouTube”, conta.

E não é só a região sudeste que conta com ações do tipo. De 2018 a 2019, Tatyane Calixto trabalhou em um projeto do Instituto João Carlos Paes Mendonça de Recife. A instituição oferece cursos de programação e design para alunos das comunidades de Brasília Teimosa e do Pina, ambas regiões periféricas da capital pernambucana.

“É um curso de um ano. Eu trabalhei ensinando programação, depois fomos para o Construct e terminou no Unity. A gente também fez algumas visitas a estúdios daqui; trouxemos palestras para os estudantes e fizemos uma game jam”, descreve.

Tatyane Calixto (Foto: Arquivo Pessoal)

Basta o acesso? 

Tatyane aponta que oferecer a possibilidade de colocar as mãos nos computadores não é suficiente. Para ela, também é preciso permitir que as pessoas percebem que tais espaços também lhes pertence. “Também falta diversidade. De as pessoas de periferia saberem que também podem ocupar este espaço. Ter mais mulheres, mais pessoas negras, para que se sintam mais à vontade nestes lugares”, defende.

Tainá também acredita que a simples oferta de equipamentos não dá conta quando o assunto é acesso a games. Para ela, a questão não é que a periferia está descobrindo os jogos agora, mas sim que as pessoas de fora só estão percebendo o potencial das comunidades periféricas agora.

“É muito inocente pensar que a periferia não entende, não conhece toda cultura que vem com games”, aponta. Para exemplificar isso, ela lembra do PerifaCon, evento que levou cultura pop para Capão Redondo na zona sul de São Paulo no ano de 2019. Gratuita, a ação levou mais de 4 mil pessoas a visitarem os estandes de quadrinhos, arte e, claro, games. “Eu tava lá, expondo nossos jogos. Foi uma felicidade ver crianças e pais, vendo de perto tudo aquilo que a periferia já conhece”, pontua.

Tainá Felix (Foto: Arquivo Pessoal)

Ela lembra que a periferia também produz seus próprios games, mas que este é um desafio ainda maior quando falta suporte financeiro e social para isso. “Um jovem que pode se dedicar a um projeto de design de jogos é uma pessoa super privilegiada”, relembra.

Até mesmo quando projeto é gratuito e oferece acesso aos equipamentos, os alunos enfrentam dificuldades em participar. Tatyane comenta que há grande procura pelos cursos do instituto no qual trabalha, mas que, muitas vezes, os alunos precisam abandonar por falta de tempo.

Tainá aponta que, para fazer ações deste tipo, também é preciso olhar para a condição de quem vai ser beneficiado. “Se eu faço um edital para um curso com foco em comunidades carentes, eu preciso separar uma verba para apoio econômico. Essa pessoa vai ter grana para o ônibus de ir e de voltar? Ela vai deixar de fazer um bico para ir para o curso? Não é só ser gratuito, sabe?”, relembra

Economicamente, Bottallo também reconhece que o investimento da HyperX representa possíveis consumidores no futuro. “A gente sabe também que há, na periferia, uma fidelidade muito grande às marcas. Elas querem comprar um equipamento bacana, uma marca legal e estão engajadas com isso”, pontua.

Da vida para os games

Apesar de todas as dificuldades, Tatyane lembra de como os jogos se tornaram uma nova forma de expressão social para seus alunos. Ela propôs a seus alunos, como projeto final do curso, que desenvolvessem um jogo que representassem suas comunidades. O que ela recebeu foi um portfólio rico de ideias e pensamentos.

“Teve um jogo em específico que foi bem legal. Existe um bar, aparentemente muito conhecido em Brasília Teimosa, e que um dos grupos representaram no seu jogo. É muito familiar e distante daquela cultura que a gente importa de jogos dos Estados Unidos. Isso deixa a gente muito feliz”, finaliza a professora.

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